Psicodélicos: o que falta para tratamento chegar ao SUS – 23/07/2026 – Virada Psicodélica
O Instituto do Cérebro e o Hospital Universitário Onofre Lopes iniciam esta semana teste clínico fundamental para alcançar a meta de ofertar terapias psicodélicas a todos os brasileiros. As duas unidades da Universidade Federal do Rio Grande do Norte remam contra a corrente da Grande indústria farmacêuticamas são tolhidas por burocracia, preconceito, recursos escassos e conflitos no próprio campo.
O ensaio com vistas a tratar depressão resistente aos medicamentos existentes envolve inalação de dimetiltriptamina (DMT), psicodélico clássico presente na ayahuasca e na raiz da jurema-preta. O grupo já obteve bons resultados com 14 pacientes (85% de resposta e 57% em remissão após uma semana) no estudo de fase 2a em 2025 e agora deslancha o de fase 2b com controle por placebo e até 140 voluntários em recrutamento em Natal, São Paulo, Rio, Salvador e Fortaleza.
Ó teste multicêntricomarco na pesquisa psicodélica nacional, conta com parte dos R$ 6 milhões aprovados para o ICe-UFRN pela Finep, órgão federal de apoio a projetos. É passo decisivo para chegar à fase 3, que pode arrolar centenas de pacientes, custar vários milhões e fundamentar um pedido de licença da terapia a agências reguladoras, como a Anvisa no Brasil e a FDA nos Estados Unidos.
É nessa terceira etapa de pesquisa que se encontrava o ensaio com outro psicodélico antidepressivo inalável (5-MeO-DMT) em teste pela firma AtaiBeckley ao ser comprada pela maior farmacêutica do mundo, a Eli Lilly, na semana passada. O valor da aquisição ficará entre US$ 2,8 bilhões e US$ 3,8 bilhões (R$ 14,3 bilhões a R$ 19,4 bilhões), a depender de metas assumidas pela AtaiBeckley.
Incomparáveis não são só os valores, mas os modelos por trás das iniciativas (ICe/HUOL/UFRN vs. Eli Lilly/AtaiBeckley). As empresas bilionárias estrangeiras vão vender caro seu tratamento protegido por propriedade intelectual (patentes), enquanto as instituições públicas nacionais ora pretendem levá-lo para o DELESou seja, dar acesso gratuito aos compostos para todos os brasileiros deprimidos.
Não seria a primeira vez que a saúde coletiva fala mais alto no Brasil. Pense na quebra das patentes de medicamentos contra o HIVnas campanhas de vacinação que orgulhavam o país até o campo bolsonarista plantar o negacionismo, no Programa Saúde da Família. Agora imagine a promessa psicodélica casada com o atendimento comunitário humanizado nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
Não é por outro motivo que a Associação Psicodélica do Brasil (APB) lançou a palavra de ordem #PsicodélicosNoSUS. Aqui temos condições favoráveis para inventar uma alternativa local ao modelo farmacológico-capitalista favorecido por Trunfoà gentrificação de substâncias naturais (cogumelos “mágicos” e plantas da ayahuasca, vinho da jurema e rapés) apresentadas à medicina por povos indígenas.
Cada vez mais psicólogos se interessam por essa inovação, mas entre psiquiatras e outros profissionais de saúde ainda vigoram preconceitos sem base factual, como a crença de que psicodélicos viciam. Isso para não falar de políticos, de reguladores e do senso comum na população. Essas barreiras só serão derrubadas com um movimento similar ao que tornou a ayahuasca legal para uso religioso, porém mais abrangente.
Desta vez não será possível deixar povos originários de fora. Há que encetar com eles um diálogo franco para demonstrar que todos –lideranças indígenas, pesquisadores, médicos, psicólogos, militantes, empresários, cientistas sociais– podem se alinhar pela saúde mental que o outro lado se empenha em destruir.
Quando se decide, o país sabe inovar e desafiar o status quo da globalização avassaladora, como fez antes com patentes de antirretrovirais e faz agora com o Pix. E não é só em sentido figurado que a promessa psicodélica precisa de um Pix; compete aos poucos filantropos esclarecidos deste país sacar alguns milhões dos bolsos bilionários para financiar o enfrentamento dos transtornos mentais que a desigualdade a enriquecê-los só faz aumentar.
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