Ozempic e Mounjaro previnem câncer? Evidências são fracas – 15/07/2026 – Equilíbrio e Saúde
Nas semanas em torno da reunião anual de 2026 da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, meu celular não parava de vibrar com alertas sobre medicamentos GLP-1 e câncer. As manchetes estavam em nos jornais e nas redes sociaistodas girando em torno da mesma afirmação: Ozempic pode reduzir o risco de câncer.
Por trás dessas notícias há uma onda real de estudos, que envolvem milhões de pacientes. Sou médico e epidemiologista clínico, e minha equipe e eu interpretamos esse tipo de estudo.
O entusiasmo em torno da ideia de que medicamentos GLP-1 podem prevenir câncer está muito à frente das evidências. Não necessariamente errado; apenas ainda não comprovado.
O câncer está entre as coisas mais difíceis de estudar, porque não é uma doença, mas mais de cem. Câncer de mãecâncer de pulmão e cânceres do sangue não são variações da mesma doença, cada um tem uma biologia distinta e sua própria combinação de riscos genéticos, ambientais e comportamentais. Um único medicamento nunca recebe um veredito único sobre como afeta o câncer.
Antes do burburinho atual de que medicamentos GLP-1 poderiam reduzir o risco de câncer, a preocupação ia na direção oposta: de que poderiam aumentar o risco de desenvolver a doença.
Os pesquisadores estavam originalmente preocupados com o câncer de tireoide. Estudos em roedores descobriram que o Ozempic causava tumores nas células C da tireoide, razão pela qual os reguladores dos EUA adicionaram, em junho de 2026, um aviso no medicamento, desaconselhando seu uso entre aqueles com histórico pessoal ou familiar de condições relacionadas.
Mas roedores não são pessoas. As células C da tireoide humana são menos sensíveis aos medicamentos GLP-1, na comparação com as células C de roedores, porque têm muito menos receptores de GLP-1. Estudos de longo prazo em macacos não mostraram o mesmo crescimento anormal das células da tireoide visto em roedores.
Uma análise de 2025 de dados de 93 ensaios clínicos também não encontrou ligação clara entre tomar certos medicamentos GLP-1 e câncer de tireoide.
O câncer de pâncreas foi outra preocupação. Novamente os pesquisadores não encontraram risco aumentado ligado aos medicamentos GLP-1 em uma análise de 2025 de dados de 62 estudos.
Importante lembrar, contudo, que esses medicamentos são novos, e o câncer pode levar décadas para se manifestar.
Outro estudo, de 2024, com mais de 1,6 milhão de pessoas com diabetes tipo 2, encontrou taxas mais baixas de 10 dos 13 cânceres relacionados à obesidade em pessoas tratadas com um medicamento GLP-1, em comparação com insulina.
Um estudo de 2025 com cerca de 87 mil adultos descobriu que as taxas gerais de câncer entre aqueles que começaram a tomar um medicamento GLP-1 foram 17% mais baixas, com as reduções mais claras em cânceres de endométrio e ovário. O risco de câncer renal foi 38% maior entre pacientes tomando medicamentos GLP-1, mas estudos maiores são necessários.
Uma pesquisa de 2026 com mais de 110 mil mulheres submetidas a exames de imagem encontrou um risco aproximadamente 30% menor de câncer de mama entre aquelas que usam medicamentos GLP-1, em comparação àquelas que não usam.
Por que interpretações incorretas são comuns
Embora essas descobertas sejam empolgantes, estudos sobre os efeitos dos medicamentos GLP-1 no risco de câncer têm três características que os tornam especialmente fáceis de interpretar errado.
A primeira é o viés do usuário saudável. Pessoas que começam a tomar um medicamento GLP-1 tendem a ser mais saudáveis e mais ricas do que aquelas que não tomam.
A segunda é a escolha do medicamento de comparação. Para entender o efeito de um medicamento, ele precisa ser comparado a outra coisa.
O estudo de 2024 relatou que pacientes tomando medicamentos GLP-1 tiveram grande redução no risco de câncer em comparação àqueles que tomam insulina. Já a comparação com o medicamento para diabetes metformina não mostrou redução clara no risco de câncer.
A insulina é reservada para pacientes com diabetes mais avançado, uma condição que por si só é um fator de risco para câncer.
A terceira é o tempo. O câncer pode levar décadas para se desenvolver, mas a maioria dos estudos sobre GLP-1 acompanha pessoas por apenas alguns anos. Em alguns estudos, os aparentes benefícios anticâncer dos medicamentos GLP-1 aparecem quase imediatamente. Mas a prevenção não funciona tão rapidamente —um medicamento que realmente reduzisse o risco de câncer mostraria seu efeito gradualmente, à medida que menos tumores surgissem, não nos primeiros meses de uso.
Quando o risco de câncer parece cair assim que um paciente começa o tratamento, a velocidade não é um triunfo mágico dos medicamentos GLP-1. Na minha opinião, indica, na verdade, que pessoas que começam esses medicamentos já estavam em menor risco de câncer, e os medicamentos GLP-1 recebem o crédito por essa vantagem preexistente.
Além disso, quase toda essa pesquisa vem de países de alta renda. Ou seja, a ideia de que os medicamentos GLP-1s podem reduzir o risco de câncer está partindo de dados gerados quase inteiramente em p aíses ricos.
O que os ensaios randomizados mostram?
A maneira mais limpa de contornar esses vieses são os ensaios randomizados, que tornam os grupos de comparação semelhantes desde o início. E os dados disponíveis contam uma história mais silenciosa do que as manchetes têm mostrado.
Duas meta-análises de 2025, que agruparam dados de múltiplos estudos –uma reunindo 50 ensaios; outra, 48–, encontraram poucas evidências de que medicamentos GLP-1 aumentem ou diminuam o risco de câncer.
As descobertas dessas meta-análises são geralmente mais confiáveis do que as de estudos observacionais porque sua quantidade total de dados aumenta seu poder estatístico. Mas essas análises herdam as limitações dos ensaios que incluem —a maioria dos ensaios nesses estudos de 2025 teve um acompanhamento curto de um ou dois anos e registrou poucos casos de câncer para resolver a questão.
Ensaios clínicos randomizados projetados para responder à pergunta se os medicamentos GLP-1 afetam o risco de câncer precisariam recrutar dezenas de milhares de pessoas e acompanhá-las por muitos anos. Até lá, a ideia de que medicamentos GLP-1 reduzem o risco de câncer é uma hipótese que vale a pena testar, mas não uma certeza para agir.
Conclusão
Com base nas evidências disponíveis, a conclusão mais clara é a tranquilizadora: medicamentos GLP-1 não parecem aumentar o risco geral de câncer. No entanto, afirmações mais ambiciosas, como a de que os GLP-1s previnem o câncer ou melhoram a sobrevida após o diagnóstico, permanecem não comprovadas.
Suponha que os GLP-1s realmente tenham um efeito no risco de câncer. Os pesquisadores ainda não saberiam de onde vem esse efeito: da perda de peso em si, da melhora mais ampla na função metabólica ou de um efeito mais direto na inflamação, no sistema imunológico ou nos tumores.
Este texto foi publicado originalmente aqui.




