“Às vezes tem algumas coisas boas em ser negra. A gente ganha uns apelidos muito fofinhos, tipo o apelido do meu pai, que era Chocolate”, conta Olívia, 8. Ela é a mais nova de três irmãos e adora brincar de boneca e pintar. Quando crescer, sonha em se tornar policial, como o bisavô e o tio.
Em uma sociedade marcada pela escravidão e pelo preconceito, meninas e mulheres negras nem sempre puderam brincar, se divertir e realizar seus sonhos. Foi por isso que um grupo se reuniu em 1992 no 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana. O objetivo era criar estratégias de combate ao racismo e ao machismoalém de reivindicar uma sociedade mais justa e igualitária.
Após o encontro histórico, a ELE (Organização das Nações Unidas) declarou que 25 de julho seria o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Após 34 anos, diversos direitos foram conquistados. Embora meninas e mulheres negras ainda enfrentem discriminações, as novas gerações têm mais espaço para sonhar com diferentes possibilidades de futuro.
Olívia, por exemplo, quer ser policial federal. “Meu tio nos levou para a delegacia, para a gente ver como é. Quando eu for policial, vou prender as pessoas que fizeram coisa errada”, conta. Ela imagina que vai ter uma casa e dois filhos. “Dá para brincar com eles e eu gasto menos dinheiro. Com o dinheiro que sobrar, vou comprar roupas para os meus filhos e para mim.”
Ela também diz que vai se divertir com a mãe, mesmo quando for adulta. “Vou levar para morar comigo, para cuidar dela. Ela vai estar idosa. Eu aprendi isso com a minha tia, porque quando minha avó não consegue fazer algumas coisas, minha tia ajuda. Se minha mãe morar sozinha e não conseguir fazer as coisas, vai ficar ligando 24 horas. Prefiro que ela esteja comigo”, diz.
A mãe de Olívia ouviu a conversa com a repórter e achou graça, mas ainda não disse se vai concordar. Já o pai dela, o Chocolate, morreu, por isso não estará fisicamente nesse futuro.
Elloá, 7, tem sonhos que gostaria de realizar agora, como ganhar um irmãozinho e comprar um liquidificador para a mãe. A brincadeira favorita dela é pique-bandeira. No futuro, ela quer se tornar veterinária e ajudar a família a se mudar para uma casa com um quarto só para ela.
“Meu quarto vai ser fofo. Vai ter um quadro, vai ter uma penteadeira, vai ter uma mesa de estudos e um guarda-roupa branco e rosa. Eu tenho vários animais e gosto muito de bichos. Tenho um hamster chamado Panqueca e uma cachorra chamada Candinha”, conta. No tempo livre, ela vai descansar e brincar com seus animais. Ela sonha ainda em ter um furão.
Júlia, 5, quer ser muitas coisas no futuro: “Bombeira, médica e modelo. Quero ajudar as pessoas que estiverem doentes ou em perigo. Vou me sentir bem”, afirma.
Ela adora brincar de pega-pega, esconde-esconde e boneca com as amigas. Também gosta muito de dançar. Suas coreografias preferidas são do Michael Jackson. Quando crescer, ela quer ser igual a mãe. “Porque eu amo a mamãe”, diz ele. Outras mulheres negras que a inspiram são a amiga da mãe e a tia.
Júlia planeja continuar fazendo muitas outras coisas, como ginástica artística e corrida. No ano passado, ela correu 3 km na corrida do Bob Esponja. Ela conta que gosta muito de ser uma menina negra. “Minha família é toda pretinha. Posso fazer várias coisas com o meu cabelo, e a minha pele é de chocolate.”
As irmãs Luiza, 7, e Helena, 5, acreditam que ser negra é um superpoder. “Isso me ajuda a ficar mais craque, porque vários craques também são negros. O Peléó Vinícius Júnioró Mbappé“, conta Luiza.
Ela quer se tornar jogadora de futeboljogar pelo Brasil numa Copa do Mundo e fazer 13 gols. “Também sou muito boa na marcação”, afirma. Na semana passada, ela fez uma festa de aniversário com o tema da Copa. Já sua irmã, Helena, vai ser médica pediatra, para cuidar de bebês.




