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Entre o legado e a reinvenção: Brasília ainda faz jus ao título de Capital do Rock?

Celebrado nesta segunda-feira (13), o Dia Mundial do Rock convida fãs e artistas a refletirem sobre a trajetória de um dos gêneros mais influentes da música. Em Brasília, a data tem um significado ainda mais especial. Conhecida nacionalmente como a Capital do Rock, a cidade revelou algumas das maiores bandas da história do rock brasileiro e construiu uma identidade cultural que atravessa gerações. Mas, décadas depois do auge desse movimento, a pergunta permanece: Brasília ainda faz jus ao título que conquistou?

A fama da capital nasceu nos anos 1980, quando uma geração de jovens transformou garagens, superquadras e espaços públicos em verdadeiros laboratórios musicais. Em um período marcado pela redemocratização do país, bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude encontraram na música uma forma de expressar inquietações políticas, críticas sociais e os conflitos da juventude da época.

O movimento começou a ganhar força ainda no fim da década de 1970. Diferentemente de centros como Rio de Janeiro e São Paulo, Brasília não possuía uma indústria musical consolidada. O isolamento da cidade, aliado ao cotidiano de filhos de servidores públicos, diplomatas e políticos, muitos deles com acesso a discos importados, favoreceu o surgimento de uma cena autoral que se reunia nas superquadras do Plano Piloto.

Um dos principais marcos dessa história foi o Aborto Elétrico, banda formada por Renato Russo, Fê Lemos e André Pretorius. Apesar da curta existência, o grupo se tornou o embrião de duas das maiores bandas do rock nacional: Legião Urbana e Capital Inicial. Ao lado da Plebe Rude, esses artistas levaram o nome de Brasília para todo o país e consolidaram a cidade como referência do gênero.

Quatro décadas depois, o legado permanece vivo, mas a realidade da cena é diferente.

Entre o passado e o presente

Para Miguel Galvão, gestor da Infinu Comunidade Criativa, Brasília continua sendo uma cidade importante para o rock, mas atravessa um período de transformação. “A cena candanga passa por um momento delicado de entressafra de bandas. Muitas acabaram ou suspenderam suas atividades e, embora algumas estejam voltando, o fluxo de novos nomes ainda não recuperou o patamar anterior”. Segundo ele, parte desse cenário é consequência dos impactos deixados pela pandemia, que afetaram diretamente casas de shows, espaços culturais e artistas independentes.

Apesar da força simbólica construída nas últimas décadas, Miguel acredita que o título de Capital do Rock já não representa completamente a realidade atual. “Considerando nosso dia a dia, o título de capital do rock virou um bordão localista muito distante do que de fato acontece na realidade atual”.

Uma nova geração tenta ocupar seu espaço

Se o cenário mudou, novos artistas seguem trabalhando para escrever um novo capítulo dessa história. É o caso de Kenji Matsunaga, vocalista da Never Look Back e guitarrista da Galinha Preta. Para ele, Brasília continua produzindo bandas de qualidade, mas falta estrutura para que esses projetos consigam crescer.

galinha preta
Banda Galinha Preta. – Foto: Cadu Andrade

“Acredito que temos muitos nomes fortes representando o rock de Brasília em nível nacional hoje, mas falta apoio do público. Precisamos olhar para o presente e para o futuro com mais carinho, em vez de ficar esperando pela próxima Legião Urbana”.

Na avaliação do músico, um dos maiores desafios está na escassez de espaços voltados para apresentações autorais. “A falta de espaços apropriados para eventos dificulta a frequência de apresentações. Temos pouquíssimos locais voltados para bandas autorais e, muitas vezes, com equipamentos precários”.

Para Kenji, fortalecer a cena independente é o caminho para que Brasília volte a ocupar posição de destaque. “O que movimenta e constrói nossas bandas é o cenário independente, não os grandes festivais”.

O público mudou, e o rock também

As transformações da cena não passam apenas pelos artistas. O comportamento do público também mudou. Miguel Galvão observa que as novas gerações consomem música de maneira diferente daquelas que fizeram o rock brasiliense florescer nos anos 1980. “Montar uma banda parece que ficou chato e complicado para os jovens. Hoje a atenção está muito voltada para artistas individuais, como acontece no trap. A impressão é que cada vez menos pessoas escutam rock”.

Além da mudança nos hábitos culturais, ele aponta dificuldades para atrair público aos eventos. “Ainda não entendemos como a geração Z quer consumir cultura. Muitos não gostam de pagar ingresso e bebem pouco. Soma-se a isso a dificuldade de divulgação nas redes sociais e os problemas de mobilidade do Distrito Federal, que tornam mais difícil circular pela cidade para assistir aos shows”.

Falta investimento para fortalecer a cena

Na avaliação do cantor Guizão, outro obstáculo está na falta de investimento financeiro e de visibilidade para quem produz rock autoral em Brasília. “Os artistas de Brasília recebem pouco apoio genuíno da mídia, dos festivais e principalmente do público”.

Segundo ele, essa realidade acaba afetando diretamente a qualidade das produções. “Normalmente os músicos ficam à mercê de produções caseiras, o que deixa o material pouco competitivo no mercado nacional. O rock é gigante, mas para entrar nesse mercado precisamos de mídia. Para ter mídia, precisamos de dinheiro”.

Guizão acredita que, apesar da importância histórica das bandas brasilienses, a cidade ainda não conseguiu formar uma nova geração com o mesmo alcance nacional. “Não tivemos continuidade das bandas que conquistaram espaço nacional e criaram esse legado. Eu tento fazer algo novo, que conversa com a musicalidade do Distrito Federal, mas que também refresca o rock brasileiro”.

O futuro depende da cena independente

Mesmo diante dos desafios, os entrevistados concordam que o rock de Brasília está longe de desaparecer. Para Miguel Galvão, o fortalecimento da cena passa pelo incentivo à música desde cedo e pela construção de uma identidade própria para as novas bandas. “É preciso resgatar a diversão e o tesão em se juntar com os amigos para fazer um som. Isso precisa começar ainda na escola”. Ele também acredita que repetir fórmulas do passado não é o caminho. “Brasília é única. O desafio é encontrar um lugar artisticamente autêntico, em vez de simplesmente emular o que já deu certo”.

Kenji compartilha da mesma visão e defende que a cidade fortaleça primeiro sua própria base cultural. “Sem proteger a vida noturna, apoiar casas independentes e criar um público fiel, dificilmente teremos outra era de ouro do rock”, desabafa.

Mais do que preservar a memória construída por nomes como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, o desafio agora é criar condições para que novos artistas contem suas próprias histórias. Afinal, o título de Capital do Rock não depende apenas do passado, mas da capacidade de manter viva uma cena que sempre fez da música um instrumento de identidade, resistência e transformação.

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