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É urgente olhar para o adoecimento psíquico masculino – 14/07/2026 – Equilíbrio

Olhar com humanidade para o adoecimento psíquico masculino é urgente. Precisamos encontrar um caminho conjunto feito pelo desmoronamento de padrões e ideais que aprisionam homens e mulheres e pelo acolhimento de dores silenciadas, que explodem de forma disfuncional.

Percebo os homens hoje, de diferentes gerações, presos em um paradoxo que os deixa em uma espécie de limbo simbólico. Para a maioria, os parâmetros que definiam sua identidade estão, ao mesmo tempo, sendo questionados e ainda assim desejados —e, incomodamente, não alcançados.

São homens que carregam as cicatrizes de uma educação que associou masculinidade a um imperativo de força e potência inabaláveis. Foram criados por pais e mestres que se faziam de exemplos ao sustentar a casa, a opinião, a palavra final. Exemplos que ensinavam a suprimir sentimentos, faltas e impotências como sinal de amadurecimento, ainda que às custas de um apodrecimento emocional. As conversas, os carinhos e as lágrimas engolidas viraram pus psíquico.

A escritora e teórica feminista ganchos de sino afirma que o patriarcado é também uma doença emocional para os homens: a primeira violência que exige do homem é contra si, o mandato de matar as próprias partes emocionais. E quando não consegue se anestesiar sozinho, outros homens se encarregam de puni-lo via rituais de poder que atacam sua autoestima.

Lidamos com os efeitos da contenção e rigidez que interditam toda ambivalência gerada numa vida em que esses meninos-homens amam e amaram exemplos de masculino agressivo e, ao mesmo tempo, foram gravemente feridos por eles. Seus pais e amigos heróis eram fortes, vencedores, inabaláveis. Como então desistir desse ideal sem se sentir traindo as próprias referências?

Diariamente, recebo na clínica homens que se sentem fracassados, impotentes e perdedores. Frustrados por não terem acumulado dinheiro, alcançado altos cargos, sustentado casamentos, todos símbolos concretos do que aprenderam a chamar de hombridade. Fracassaram num mundo que nunca lhes ensinou o que fazer com o fracasso, mas que ainda ensina que, se alguém pode e deve vencer, esse alguém é um homem.

O homem tem seu lugar truncado na sociedade e na vida das companheiras, cada vez mais autônomas. O perverso é que ninguém quer ser “comum”, “medíocre”. Porque ninguém os acolheu enquanto fracassavam.

Muitos vivem, assim, a angústia de uma falha tida como pessoal que é, de fato, o sintoma do desmoronar de um ideal impossível e corrosivo.

Há ainda outra camada analítica: manter o velho ideal masculino não é só desejo de potência, mas também uma tentativa de negar a impotência vivida e interditada. A “compulsão à repetição” apontada pela psicanálise: todo trauma não elaborado retorna como ato reencenado. Repetir é controlar, é tentar salvar o menino machucado sem perceber que, ao introjetar o agressor, só se repete a dor, em si e em uma nova vítima.

Se a compulsão que adoece é aprendida e reforçada entre homens, a saída não pode ser solitária. Que homens e mulheres, juntos, possam nomear violências sofridas e cometidas e dar contorno ao que foi calado por gerações.

Que aos homens haja espaço para reconhecer que certos atos de educação foram trauma e mutilação. Que possam chorar e se responsabilizar. E que possam, enfim, fazer em voz alta a pergunta que os assombra: qual é o meu lugar, se não sou mais o provedor?

Que nós, mulheres, tenhamos generosidade para apontar o machismo e impor limites. Não para educá-los (“não sou babá de homem”, repete o clichê), mas para cuidarmos uns dos outros. E que possamos, juntos, deixar de acreditar que um relacionamento saudável é aquele em que nos sentimos seguros pela força do outro. Ela se faz pelo respeito e pelo acolhimento da fragilidade de todos.

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