Datafolha: brasileiro rejeita medidas legais sobre saúde – 18/07/2026 – Equilíbrio e Saúde
Embora a maioria dos brasileiros associe o tabagismoó abuso do álcool e o consumo de produtos ultraprocessados ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como câncer, diabetes e problemas cardiovascularesapenas um terço defende medidas legais para reduzir esses fatores de risco.
É o que revela pesquisa Datafolha encomendada pela ACT Promoção da Saúde. O levantamento foi realizado em maio último com 2.000 entrevistados com idade entre 16 e 18 anos e outros 1.913 com mais de 18 anos em 117 municípios das cinco regiões do país. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
O levantamento mostra que a população ainda atribui principalmente ao indivíduo a responsabilidade por evitar doenças crônicasdeixando em segundo plano políticas públicas consideradas essenciais por especialistas para reduzir o consumo de produtos nocivos.
De acordo com a pesquisa, 92% dos entrevistados relacionam o tabagismo —incluindo cigarros eletrônicos— às DCNTs. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas é apontado por 83%; alimentação rica em ultraprocessados, por 80%; sedentarismo e poluição do ar, por 78%.
Quando questionados sobre as formas mais eficazes de combater essas doenças, 56% defenderam que as empresas expliquem com clareza os riscos de seus produtos. Outros 53% citaram campanhas de informação na TV, internet e redes sociais, enquanto 52% afirmaram que “cada pessoa deve tomar os cuidados para não desenvolver essas doenças”.
Já a adoção de medidas legais, como regulamentações sobre comercialização, publicidade, rotulagem e tributação desses produtosrecebeu apoio de apenas 33% dos entrevistados.
Para Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, os resultados refletem uma visão cada vez mais centrada na responsabilidade individual pela saúde.
“Existe uma tendência de colocar toda a culpa nas costas do indivíduo, como se todas as escolhas fossem completamente livres, ignorando que elas acontecem dentro de ambientes moldados por estratégias de marketinginteresses econômicos e ausência de regulação”, afirma.
Segundo ela, essa percepção dificulta a compreensão do papel das políticas públicas na prevenção. “É impossível esperar que a indústria informe espontaneamente os riscos dos próprios produtos. Rotulagem, restrições à publicidade e outras medidas precisam ser obrigatórias, baseadas em evidências científicas.”
A ACT avalia que o resultado evidencia uma oportunidade para ampliar o debate sobre o papel da regulação na saúde pública. Para a entidade, políticas desse tipo não restringem a liberdade individual e tornam os ambientes mais favoráveis a escolhas saudáveis.
A pesquisa também mediu a percepção dos entrevistados sobre a influência política das indústrias de produtos considerados nocivos, e 77% afirmaram que não votariam em candidatos apoiados pela indústria do tabaco. O índice é de 68% para candidatos ligados ao setor de bebidas alcoólicas66% para empresas de agrotóxicos e 58% para fabricantes de alimentos ultraprocessados.
Apesar disso, Johns afirma que a população ainda não relaciona o financiamento político à formulação de políticas públicas. “As pessoas dizem que não votariam nesses candidatos, mas muitas vezes não conseguem identificar quem recebe apoio desses setores. Falta transparência para fazer essa conexão.”
O levantamento investigou a percepção da população sobre a relação entre mudanças climáticas e doenças crônicas. Para 81% dos entrevistados, eventos como ondas de calor, enchentes e aumento das temperaturas elevam o risco de desenvolver essas doenças.
De 2023 a OMS (Organização Mundial da Saúde) vem alertando sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde, em especial sobre doenças respiratórias e cardiovasculares.
O aumento das temperaturas, queimadas e inversões térmicas elevam os níveis de material particulado no ar, agravando quadros de asma e DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica)por exemplo.
Já o estresse térmico gerado por ondas de calor sobrecarrega o sistema circulatório, aumentando o risco de infarto e AVC (acidente vascular cerebral). Secas prolongadas também dificultam o acesso a alimentos frescos e nutritivos, impactando o controle do diabetes, da obesidade e da desnutrição.
Segundo Johns, o resultado reforça a proposta da entidade de adotar uma abordagem chamada de “prevenção 360º”, que integra políticas de saúde e ambientais no enfrentamento das doenças crônicas, que respondem por 74% das mortes do mundo. No Brasil, elas são responsáveis por cerca de 54% dos óbitos.
“Quando melhoramos o ambiente, seja regulatório, urbano ou ambiental, criamos condições para reduzir diversos fatores de risco ao mesmo tempo”, diz.
A pesquisa teve apoio da humanidadeassociação civil sem fins lucrativos e independente que fomenta projetos de prevenção de doenças e promoção da saúde pública no Brasil.
Para Thais Junqueira, presidente da Umane, a iniciativa busca ampliar a capacidade de influenciar políticas públicas e ações intersetoriais. Ela afirma que a proposta também permite aproveitar conquistas obtidas em áreas como o controle do tabaco para enfrentar outros fatores de risco.
Na avaliação de Junqueira, incorporar a dimensão climática amplia o alcance da prevenção ao evidenciar que eventos extremos, como ondas de calor e enchentes, agravam especialmente as doenças cardiovasculares e atingem de forma mais intensa as populações vulneráveis.
Segundo ela, a iniciativa pretende subsidiar políticas voltadas à melhoria da infraestrutura das cidadesao fortalecimento dos sistemas de alerta e à preparação da atenção primária para responder aos efeitos do clima sobre a saúde.
Para Junqueira, o enfrentamento das doenças crônicas deixa de ser uma agenda restrita ao setor saúde e passa a envolver áreas como planejamento urbano, infraestrutura e meio ambiente.
Ó projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.




