1/4 dos pacientes enfrenta espera maior no SUS, diz TCU – 14/07/2026 – Equilíbrio e Saúde
O programa Agora Tem Especialistasprincipal aposta do governo Lula para reduzir as filas de consultas, exames e cirurgias no DELES (Sistema Único de Saúde), ampliou a oferta de atendimentos, mas ainda não conseguiu demonstrar que reduziu de forma consistente o tempo de espera dos pacientesespecialmente nos procedimentos de maior complexidade.
Auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União)que analisou mais de 768 milhões de registros de saúde entre 2023 e 2025, mostra que um quarto dos pacientes enfrenta esperas cada vez mais longas —algumas acima de um ano— de cirurgias como para câncer de tireoideneurocirurgias vasculares, correções de escoliose e paratireoidectomias, para retirada das glândulas que controlam o cálcio do organismo.
Para o tribunal, os casos mostram gargalos estruturais relacionados à escassez de profissionais especializados, à concentração da oferta em poucos centros de referência e às dificuldades de organização das redes regionais de atenção.
Gerido pelos governos federal, estaduais e municipais, o Agora Tem Especialistas recebeu R$ 3,3 bilhões em 2025, ano em que o programa foi instituído, para ampliar atendimentos cirúrgicos e ambulatoriais. A auditoria reconhece que a produção cirúrgica aumentou e voltou ao patamar anterior à pandemia em diversas especialidades, mas afirma que esse avanço, por si só, não comprova redução das filas.
O relatório mostra que o ritmo de crescimento da produção caiu de 45,6% em 2022 para 20,3% em 2023 e 2024, chegando a 4,5% em 2025. Para o TCU, a desaceleração indica que o sistema se aproxima do limite de sua capacidade operacional. A partir desse ponto, novos avanços dependerão menos da ampliação do financiamento e mais da capacidade do SUS de reorganizar sua oferta de serviços especializados.
A auditoria também apontou falhas na integração dos sistemas de informação, na gestão e na transparência do programa. Segundo o TCU, o Ministério da Saúde ainda não dispõe de uma base nacional capaz de acompanhar o percurso do paciente desde a entrada na fila até a realização do procedimento, dificultando medir o tamanho real da demanda e avaliar o impacto da política pública.
O relatório, assinado pelo ministro Bruno Dantas, determinou, entre outras medidas, que o ministério passe a monitorar e divulgar a execução dos recursos do programa e apresente um plano de ação com prazos e responsáveis para corrigir as falhas identificadas.
O secretário de Atenção Especializada do Ministério da SaúdeMozart Julio Tabosa Sales, concorda que a integração dos dados ainda é insuficiente, o que dificulta demonstrar se houve de fato uma redução nacional do tempo de espera por procedimentos após o início do programa.
Ele afirma que esse é um dos principais eixos da nova etapa do programa e que praticamente todos os estados já enviam informações de produção ao ministério. O desafio agora é qualificar esses dados e integrar os sistemas estaduais de regulação. A expectativa é que, até o fim deste ano, o país disponha de um painel nacional capaz de acompanhar os tempos de espera e o percurso dos pacientes.
“Não é só saber quantas pessoas estão na fila. É preciso saber há quanto tempo estão esperando, em que etapa do atendimento se encontram e qual é a gravidade de cada caso”, afirmou à Folha.
De acordo com Mozart, a nova fase do programa busca substituir a lógica de procedimentos isolados por linhas completas de cuidado, nas quais consulta, exames, diagnóstico e tratamento são organizados como um único processo. São as chamadas OCIs (Ofertas de Cuidado Integrado), que reúnem toda a jornada assistencial do paciente.
Na avaliação do secretário, boa parte da implantação das OCIs ocorreu durante o período analisado pelo tribunal, o que ajuda a explicar a baixa execução observada. Ele afirma que o modelo ainda atravessa uma curva de aprendizado e exige mudanças profundas na organização da atenção especializada.
A auditoria aponta grande desigualdade regional na implantação dessa estratégia. Embora quase 90% dos municípios tenham aderido às OCIs, apenas 6,9% das ofertas previstas haviam sido executadas no período analisado. Em sete estados, nenhuma oferta integrada chegou a ser realizada.
Mozart contesta parte das conclusões da auditoria. Segundo ele, o TCU avaliou apenas dois componentes do Agora Tem Especialistas —as OCIs e as cirurgias— e deixou de fora iniciativas como expansão da radioterapia, contratação de especialistas, aquisição de equipamentos, transporte sanitário e reorganização do diagnóstico do câncer.
Americana, no interior paulista, tornou-se uma das referências nacionais na implantação do modelo das OCIs. A prefeitura reorganizou a rede para acompanhar cada paciente ao longo da linha de cuidado e automatizou parte da gestão das OCIs. Entre julho de 2025 e maio deste ano, o município realizou mais de 16 mil ofertas integradas.
Na cardiologia, a fila para a primeira consulta caiu de um ano para cerca de 30 dias. “A lógica mudou completamente. O paciente passa pelo especialista, faz os exames, recebe o resultado e retorna ao médico no mesmo dia”, afirma Danilo Carvalho Oliveira, secretário municipal de Saúde e primeiro vice-presidente do Cosems-SP (Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo).
Segundo Oliveira, o sucesso depende menos do financiamento e mais da capacidade de gestão. Americana implantou um sistema próprio para automatizar autorizações e criou os mutirões “Mil Cuidados”, nos quais consultas, exames e retornos são concentrados em um único dia.
Para ele, a experiência demonstra que as OCIs podem reduzir filas quando há integração entre prestadores, regulação e acompanhamento permanente do paciente.
Na avaliação do economista da saúde André Medici, consultor internacional e diretor do Universal Health Monitor, a auditoria confirma problemas apontados desde o lançamento do programa. “O que mais chama atenção é a confirmação de que o programa ainda não dispõe de instrumentos suficientes para provar que está reduzindo filas de forma sustentável.”
Segundo ele, aumentar a produção não basta. “As filas não começam na cirurgia; começam na consulta especializada, no exame diagnóstico, na regulação clínica e na capacidade de definir prioridade.”
Para Medici, seria necessário apresentar séries históricas comparáveis, tempos médios de espera antes e depois, número de pacientes efetivamente retirados das filas e critérios de priorização. Sem isso, não se sabe se houve redução das filas ou apenas continuidade da recuperação após a pandemia.”
Na sua opinião, o relatório expõe mais do que dificuldades de um programa específico. “Ele revela uma fragilidade histórica do DELES: a atenção especializada sempre foi o elo mais desorganizado entre a atenção primária e o hospital.”
Sem reorganizar as redes, fortalecer a regulação e integrar os sistemas de informação, afirma o economista, o país corre o risco de transformar a redução das filas em uma sucessão de mutirões, sem capacidade de produzir resultados permanentes.




