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Como o Alzheimer está sendo derrotado – 13/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

Quando Eric Stallard, especialista em gerenciamento de riscos e acadêmico, começou a investigar a incidência de demência entre idosos americanos, ficou tão surpreso com suas descobertas que adiou a publicação de seu primeiro artigo sobre o tema por dois anos e meio enquanto verificava novamente seu trabalho. “Eu queria ter certeza absoluta”, ele recorda, já que os números desafiavam todas as expectativas. Em vez de confirmar a sabedoria convencional de que os Estados Unidos enfrentavam uma praga crescente da condição, eles mostravam que a proporção de idosos sucumbindo à doença estava, na verdade, diminuindo rapidamente. “Fiquei chocado com as quedas”, ele diz.

Stallard trabalha há uma década para corroborar essa revelação. Suas descobertas se tornaram, se possível, ainda mais impressionantes. No ano passado, ele e alguns colegas publicaram uma pesquisa no Journal of the American Medical Association mostrando que, enquanto 40 anos atrás três em cada dez americanos com idade entre 85 e 89 anos tinham demência, em 2024 apenas um em cada dez a tinha.

Além disso, os Estados Unidos não são o único beneficiário dessa tendência. Entre 1988 e 2015, a proporção de idosos que receberam o diagnóstico de demência caiu 13% por década em seis países da América do Norte e Europa, de acordo com um estudo com quase 50 mil pessoas conduzido por Frank Wolters, do Centro Médico Erasmus em Roterdã, e colegas.

Alguns estudos menores também encontraram grandes quedas. Dados do Framingham Heart Study, que acompanhou três gerações em uma cidade americana, mostram uma queda média de 20% por década nos novos casos de demência ao longo de quase 40 anos, entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 2010. Aqueles que estavam entrando na velhice quando “Get Lucky” do Daft Punk estava no topo das paradas (2013) tinham 44% menos probabilidade de ter demência do que aqueles que estavam na mesma fase quando Sting pedia a Roxanne para apagar sua luz vermelha (1978).

Enquanto a maioria dos estudos anteriores simplesmente agrupava idosos e depois aplicava um ajuste estatístico por idade, Stallard analisou faixas etárias estreitas para comparar diferentes coortes de pessoas ao longo de 50 anos. Ao examinar as mudanças entre cada coorte sucessiva, ele calcula que as taxas de demência vêm diminuindo de 2,5% a 3% para cada coorte de ano-calendário. “Na minha opinião, foi a revolução copernicana no campo”, ele diz, virando de cabeça para baixo as suposições sobre a disseminação da demência. Estudos de coorte semelhantes em vários países europeus e no Japão encontraram tendências comparáveis lá também.

Criando memórias

Grandes questões permanecem sobre por que as taxas de demência estão caindo e se continuarão a cair. O número crescente de idosos na maioria dos países e o aumento da longevidade significam que o número total de casos ainda está aumentando, mesmo que uma parcela menor dos idosos seja afetada. E as boas notícias estão amplamente confinadas aos países ricos, pelo menos por enquanto. Mas o medo de que uma epidemia de demência em breve estará fora de controle, arruinando cada vez mais vidas e colocando um fardo impossível sobre os sistemas de saúde, é felizmente exagerado.

O maior fator de risco isolado para demência é a idade. A prevalência dobra aproximadamente a cada cinco anos após os 70. Nos Estados Unidos em 2016, por exemplo, apenas 4% das pessoas com idade entre 70 e 74 anos tinham demência, mas a taxa saltou para 9% para aqueles entre 75 e 79 anos e novamente para 18% para os de 80 a 84 anos. Mais de um quarto daqueles com mais de 85 anos tinham a condição.

Esse padrão quase exponencial, combinado com o aumento da expectativa de vida, há muito alimenta previsões alarmantes. Em um estudo publicado no ano passado na revista Nature Medicine, Josef Coresh, Michael Fang e seus coautores projetaram que o número de novos casos nos Estados Unidos dobraria de cerca de 500 mil por ano em 2020 para 1 milhão por ano até 2060. Um estudo publicado em 2022 calculou que a população global de pessoas com demência quase triplicará, de cerca de 57 milhões de pessoas em 2019 para 153 milhões de pessoas em 2050.

Custos de enlouquecer

Tais números, por sua vez, alimentam estimativas assustadoras do provável custo futuro da demência. O custo direto dos cuidados (incluindo informalmente em casa) provavelmente chegou a cerca de US$ 1,3 trilhão em todo o mundo em 2019 (ou aproximadamente 0,8% do PIB global).

O fardo se torna ainda maior se considerarmos custos indiretos, como a diminuição da qualidade de vida dos pacientes. Estes somaram cerca de US$ 781 bilhões no ano passado apenas nos Estados Unidos (ou cerca de 2,5% do PIB), de acordo com um modelo financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Um artigo de Arindam Nandi, do Population Council, David Bloom, da Universidade Harvard, e outros usa uma medida ainda mais ampla que tenta colocar um preço no sofrimento dos pacientes (estimando a disposição de pagar para preveni-lo). Ele colocou o custo global da demência em US$ 2,8 trilhões em 2019, aumentando para US$ 4,7 trilhões até 2030, US$ 8,5 trilhões em 2040 e US$ 16,9 trilhões até 2050.

No entanto, tais projeções aterrorizantes estão quase certamente erradas, pelo menos no que diz respeito aos países ricos e ocidentais. Quase todas são baseadas em modelos nos quais há pouca ou nenhuma redução na taxa de demência ajustada por idade nas próximas décadas. Como haverá um número crescente de idosos na maioria dos países ocidentais nos próximos anos, e como esses idosos viverão mais, tais suposições levam a aumentos gigantescos no número projetado de casos de demência. No entanto, mesmo mudanças anuais relativamente pequenas na taxa de demência, quando acumuladas ao longo de 30 anos, podem levar a resultados muito mais felizes.

Para demonstrar isso, Chiara Celine Brück e seus coautores do Centro Médico Erasmus construíram uma simulação computacional detalhada de 10 milhões de holandeses e então analisaram como a demência progrediria sob dois cenários diferentes.

No primeiro, eles assumiram que não haveria mudança no risco subjacente de demência ao longo do tempo (além do envelhecimento) e descobriram, como outras projeções convencionais, que o número de holandeses com demência mais que dobraria até 2050. Em outro, eles usaram a pesquisa de seu coautor, Wolters, que descobriu que a incidência de demência vinha caindo 13% por década após ajuste por idade, e simularam o que aconteceria se a tendência continuasse. Eles descobriram que, embora o número de casos de demência ainda aumentasse devido ao crescente contingente de idosos, em vez de mais que dobrar até 2050, cresceria apenas 43% em relação ao nível de 2020.

Para ter mais confiança em tais projeções, os pesquisadores devem determinar por que tantas pessoas mais têm mantido sua lucidez e assim poder fazer um julgamento mais fundamentado sobre se a tendência continuará. Isso não é fácil, em grande parte porque a demência é uma condição com múltiplas causas que tipicamente se desenvolve lentamente ao longo de décadas antes de se manifestar claramente.

Os cientistas sabem há muito tempo que a demência tem um componente genético. Aproximadamente 25% da população carrega uma única cópia de um gene conhecido como ApoE4, que está associado a um risco de desenvolver Alzheimer (de longe a mais comum das dezenas de doenças que podem causar demência) 2 a 3 vezes maior que o normal. Para os 2% a 3% da população com duas cópias desse gene, o risco é 10 a 15 vezes maior.

No entanto, muitas pessoas sem esses genes desenvolvem demência e muitas que os têm não desenvolvem. A busca por outras causas da condição recebeu um impulso nos anos 1970 na Carélia do Norte, uma região remota e de vida difícil da Finlândia que tinha uma das maiores taxas de ataques cardíacos do mundo.

Para reduzir esse flagelo, as autoridades de saúde desencorajaram o tabagismo, monitoraram a pressão arterial e incentivaram a alimentação saudável. A campanha de saúde pública reduziu as mortes por ataques cardíacos em 84%. Um benefício inesperado, diz Tiia Ngandu, pesquisadora do Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar, foi a oportunidade para os pesquisadores examinarem cerca de 40 anos de registros de saúde detalhados de uma grande população.

Leis da memória

O resultado foi uma série inovadora de estudos observacionais mostrando que pressão alta, colesterol alto, obesidade e má forma física na meia-idade aumentavam os riscos de demência 20 anos depois. “Isso realmente mudou a forma como pensamos sobre a demência”, diz Miia Kivipelto, do Instituto Karolinska em Estocolmo, que liderou alguns desses estudos. “Vimos que não era apenas uma doença da velhice que não pode ser prevenida, mas mais um processo que começa na meia-idade com possibilidades de pelo menos desacelerar a progressão.”

Estudos observacionais, no entanto, não podem dar conta de variáveis que os pesquisadores não conseguem (ou não pensam em) medir, mas que podem, ainda assim, contribuir para o resultado. A melhor maneira de eliminá-las é usando um ensaio clínico randomizado controlado (ECR), o padrão-ouro na pesquisa clínica, no qual as pessoas são divididas em dois grupos, dos quais apenas um recebe a intervenção sendo testada.

Em 2009, Ngandu e uma equipe liderada por Kivipelto iniciaram o primeiro grande ECR do mundo para ver se dois anos de alimentação saudável, exercícios, treinamento cognitivo e tratamento cardíaco poderiam reduzir a demência entre idosos com alto risco de desenvolvê-la. De fato, os resultados do Finger (Estudo Finlandês de Intervenção Geriátrica para Prevenir Comprometimento Cognitivo e Incapacidade), publicados em 2015, provaram que as pessoas poderiam diminuir significativamente o risco de declínio cognitivo adotando um estilo de vida saudável.

Vários ECRs semelhantes encontraram benefícios significativos de tais mudanças no estilo de vida nos Estados Unidos, Austrália e Japão, entre outros lugares. Como esses estudos são comparáveis, reunir seus resultados também deu aos pesquisadores um grupo amostral grande o suficiente para estudar interações entre estilo de vida e genes. Isso produziu um resultado particularmente esperançoso para aqueles com o gene ApoE4, que viram um benefício maior das intervenções do que aqueles sem ele. “Você não pode mudar seus genes”, diz Kivipelto, “mas pode fazer coisas para adiar o início da doença ou reduzir o efeito da genética.”

As implicações são vastas. A Comissão Lancet sobre Demência, uma colaboração internacional de especialistas renomados, estima que até 45% dos casos de demência em todo o mundo poderiam ser retardados ou prevenidos por meio do tratamento de 14 “fatores de risco modificáveis” em várias fases da vida. Esses fatores vão desde melhor escolarização para crianças (educação insuficiente está associada a um risco 60% maior de demência) até o tratamento de surdez, colesterol alto e depressão na meia-idade e a prevenção do isolamento social na velhice.

As descobertas da comissão oferecem lições importantes para formuladores de políticas públicas sobre como reduzir a incidência (e o custo) da demência. A primeira é não focar exclusivamente os fatores com associação mais forte com a demência, como depressão não tratada (que traz um risco 120% maior de desenvolver a condição em comparação com a média). Em vez disso, abordar fatores associados a riscos menores, mas mais comuns, pode ter um impacto maior. Tratar pessoas com perda auditiva e colesterol alto, por exemplo, poderia reduzir o total de casos de demência em 14%, segundo a comissão.

Controle mental

Esses avanços ajudam a explicar por que a incidência de demência caiu tão rapidamente nos últimos 40 anos. Melhorias na educação e esforços bem-sucedidos para reduzir doenças cardíacas e derrames também, por acaso, melhoraram a saúde cerebral. “Quando me formei na faculdade de medicina, o que foi há bastante tempo, pensávamos que a demência era apenas uma dessas coisas que nos atingiam do espaço sideral de forma totalmente aleatória”, diz Gill Livingston, da University College London, que lidera a Comissão Lancet. “É extremamente positivo e esperançoso que agora saibamos que políticas públicas e indivíduos podem fazer muito para mudar isso.”

Pesquisadores continuam a descobrir novos fatores de risco. Em 2024, por exemplo, a Comissão Lancet adicionou perda de visão não tratada e níveis elevados de LDL, um tipo de colesterol. Entre a desconcertante variedade de possíveis adições que os pesquisadores estão examinando, algumas podem ser facilmente abordadas, como usar fio dental regularmente (a inflamação causada por gengivas infectadas pode prejudicar o cérebro).

Outras, como sono ruim, podem simplesmente dar aos insones ansiosos mais uma coisa para ficarem acordados se preocupando. E algumas podem se revelar facas de dois gumes, diz Kivipelto. Pessoas com empregos exigentes e estimulantes (como pesquisadores médicos e jornalistas, ela diz, talvez com certa generosidade) têm pouca necessidade de fazer exercícios cognitivos extras para manter seus cérebros ágeis. Mas esses empregos também podem ser mais estressantes, o que pode muito bem se revelar um fator de risco também.

A pesquisa também está revelando intervenções inesperadas que ajudam a manter as mentes envelhecidas afiadas. Uma das mais promissoras deriva de uma análise de Pascal Geldsetzer, da Universidade Stanford, e sua equipe sobre um experimento natural no País de Gales.

Em 2013, a região britânica começou a oferecer vacinações gratuitas para pessoas de 70 a 79 anos por meio do sistema público de saúde. Essa mudança se assemelhou a um ensaio clínico randomizado, pois um grande número de pessoas foi separado quase aleatoriamente em dois grupos: aqueles que já haviam completado 80 anos nas semanas anteriores ao início do programa e, portanto, não eram elegíveis para serem vacinados; e aqueles que completaram 80 anos nas semanas seguintes, dos quais aproximadamente metade foi devidamente vacinada.

O estudo descobriu que uma vacina destinada a prevenir herpes-zóster, uma forma de catapora que afeta principalmente os idosos, também reduziu o risco de desenvolver demência em 20% por pelo menos sete anos após sua administração. Essa conclusão foi validada por estudos semelhantes na Austrália e no Canadá. “Ficamos superempolgados com essa descoberta”, diz Geldsetzer, “porque mostrou que uma intervenção tão simples e barata poderia potencialmente evitar um quinto dos casos.” Um estudo mais recente da mesma equipe sugere que a vacina também retarda a progressão da demência em pessoas que já a têm antes de serem vacinadas.

Esses resultados não são apenas encorajadores por si só, mas também levantam perspectivas tentadoras de benefícios adicionais. As pessoas deveriam ser vacinadas em uma idade mais jovem — 50 anos, digamos — dado que a demência pode levar anos para se manifestar? Os idosos deveriam receber vacinas de reforço regulares ao longo dos anos?

As notícias sobre tratamentos desenvolvidos expressamente para demência são menos animadoras. Até recentemente, os medicamentos mais promissores eram considerados anticorpos como lecanemab e donanemab, que se ligam e eliminam a beta-amiloide, uma proteína que obstrui os cérebros de pessoas com Alzheimer.

Mas estudos sugerem que eles oferecem benefícios modestos no mundo real e carregam riscos consideráveis de sangramento ou inchaço no cérebro, especialmente para pessoas com o gene ApoE4. Em outras palavras, as pessoas que mais precisam desses medicamentos também correm maior risco de serem prejudicadas por eles. Para alguns, essas descobertas também questionam a hipótese de que emaranhados de amiloide causam Alzheimer e que eliminá-los poderia curá-lo. Outros argumentam que esses medicamentos precisam ser administrados mais cedo na vida para terem impacto.

Alguns observadores esperam que os GLP-1s, medicamentos para perda de peso frequentemente aclamados como cura milagrosa para praticamente tudo, possam deixar os cérebros tão enxutos quanto deixam as cinturas. Um ensaio clínico randomizado descobriu que não oferece benefícios para pessoas que já têm Alzheimer, embora estudos observacionais anteriores tenham sugerido que pessoas usando esses tipos de medicamentos tinham menor risco de desenvolver demência em primeiro lugar.

Ensaios estão em andamento para testar muitos medicamentos como tratamentos para demência, incluindo muitos que foram originalmente desenvolvidos para outras doenças. Na academia EasyFit, no centro de Helsinque, um grupo de mulheres de cabelos grisalhos vestidas de lycra está na vanguarda desse esforço. Elas começam seus exercícios de aquecimento sob o incentivo gentil de uma fisioterapeuta. Durante a próxima hora, elas levantam pesos, balançam kettlebells, brincam e riem com gosto, como parte de um ensaio clínico randomizado. “O Alzheimer é um problema real”, diz Riita, de 77 anos. “Se algo pode ser feito para melhorar os métodos de ajudar as pessoas, eu gostaria muito de fazer parte disso.”

Riita e suas companheiras estão entre quase 600 pessoas em três países participando do estudo MET-Finger, que combina estilos de vida mais saudáveis com metformina, um medicamento para diabetes, para ver se esses podem prevenir ou pelo menos retardar o início de vários tipos de demência. Outros estudos estão examinando atividades desde saunas até banhos de gelo em busca de métodos para aguçar a mente.

Por enquanto, mesmo as projeções mais otimistas ainda implicam um aumento no número total de casos de demência nas próximas décadas, embora a um ritmo muito mais lento do que antes, à medida que as fileiras de idosos crescem. No entanto, há boas razões para esperar que uma combinação de medicamentos, vacinações, mudanças de estilo de vida e políticas públicas possa curvar ainda mais essa tendência. É até possível que o número total de pessoas com demência possa em breve começar a cair nos países ricos.

Livingston e Kivipelto apontam que a aritmética sombria pela qual as taxas de demência dobram a cada cinco anos após os 70 anos também oferece enormes possibilidades. Simplesmente retardar o início médio da demência em cinco anos reduziria o número total de casos em cerca de 50%.

“Estou otimista de que é possível”, diz Livingston. Lisa também está, uma mulher de 66 anos que se exercita na academia em Helsinque. Ela levanta pesos ou se exercita cinco vezes por semana, motivada, em parte, por experiência pessoal. “Não é agradável ver sua própria mãe se tornando uma pessoa diferente”, ela diz. “Sei que o Alzheimer pode atingir qualquer um, então é bom fazer essas coisas se você puder.”

Texto do The Economist, traduzido por Sílvia Haidar, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em economist.com

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