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Projeto em SP usa atividade física para tratar dor crônica – 12/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

Há cinco meses, dores nos ombros e na coluna lombar passaram a impactar a vida da manicure Maria Hosana Reis Ferreira de Oliveira, 53. Erguer os braços tornou-se um movimento impossível. Deitar na cama para dormir potencializava o incômodo. Noites em claro, estresse e cansaço pioraram a situação de Maria Hosana. Na UBS (Unidade Básica de Saúde), o médico recomendou o projeto EducaDor.

Voltado a pacientes das UBSs Mitsutani e Arrastão, serviços da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo administrados pelo Hospital Israelita Einsteinna zona sul da capital paulista, o projeto EducaDor trata e previne a dor crônica por meio da atividade física.

Dor crônica é aquela que persiste ou vai e volta por mais de três meses. A condição deixa de ser sinal de alarme e se transforma em doença. O problema impacta a vida da pessoa, piora os níveis de depressão e ansiedadefavorece o aparecimento de distúrbios do sonoalterações na autoestima e problemas em relacionamentos.

Hosana observou melhora do quadro em pouco tempo. “A dor nos ombros desapareceu com dois meses de frequência no projeto e a da coluna praticamente não sinto mais. Não precisei nem tomar remédios”, conta a manicure.

Segundo o fisioterapeuta Emerson Roberto Brito, 52, um dos coordenadores do trabalho, dores na lombarnos joelhos e ombros (nessa ordem) são as mais comuns entre os participantes do grupo.

Os encontros acontecem às terças-feiras, às 7h30, no Cecco (Centro de Convivência e Cooperativa) Campo Limpo, localizado junto a um CEU (Centro Educacional Unificado). Ao longo de uma hora, os pacientes praticam cinesioterapia (terapia por meio do movimento) com alongamentofortalecimento muscular, treino de equilíbrio, consciência corporal e correção postural.

“Com a cinesioterapia, o movimento é um recurso a mais no enfrentamento da dor. Fazemos atividades de mobilização, fortalecimento e alongamento muscular. Com isso, trabalhamos o equilíbrio e a propriocepção, que é o autoconhecimento do corpo. O fortalecimento muscular também ajuda na prevenção de quedasna melhora do humor, no trabalho e no combate à insônia“, explica Brito.

Os exercícios —de intensidade leve a moderada— não têm contraindicação. O segredo é não ultrapassar o limite da dor. Doentes crônicos podem executá-los desde que estejam com a condição de saúde controlada.

Na última terça-feira (7), a reportagem acompanhou uma atividade do projeto EducaDor. Na ocasião, havia cerca de 30 pessoas na sala, mas o número chega a dobrar em alguns dias, dizem os frequentadores. Ao término da sessão, todos saem com uma lição de casa: praticar os exercícios diariamente.

Sessões de auriculoterapia —técnica da medicina tradicional chinesa que usa pontos específicos na orelha para tratar condições físicas e emocionais— complementam o tratamento. Uma vez por mês, há uma aula extra com orientações sobre cuidados e prevenção de doenças. A reunião é, ainda, uma oportunidade para socialização —boa parte do grupo tem 60 anos ou mais.

Os anti-inflamatórios não conseguiram minimizar as dores na coluna cervical e na lombar da aposentada Marli Estefânia Pimenta, 64. O efeito da medicação era passageiro.

Marli frequenta o EducaDor há nove meses, desde que recebeu orientação de uma médica da UBS Jardim Mitsutani. Em pouco tempo de exercícios, a mulher sentiu diferença na intensidade da dor.

“Em 30, 40 dias, veio a sensação de alívio no corpo. Hoje, estou praticamente livre das dores. O único cuidado que tomo é com a postura e ao levantar peso”, diz a aposentada.

O desempregado Edson Ramos Silva, 67, chegou ao projeto com dor crônica persistente pós-operatória há um ano, depois de um procedimento na coluna.

Edson relata que a cirurgia foi útil inicialmente, mas com o tempo surgiram dores que irradiavam para pernas e ombros. “Não consegui controlar com medicamentos, e o médico da UBS me orientou a procurar esse grupo”, diz. Ele afirma ter melhorado acima de 70% mantendo os exercícios, sem precisar de remédios.

Como o movimento melhora a dor?

O movimento ativa a “farmácia natural” do corpo, chamada farmácia endógena. É por meio dela que o organismo aciona os seus próprios mecanismos de controle da dor.

Segundo o fisioterapeuta, o corpo produz neurotransmissores que auxiliam no combate à inflamação e na modulação da dor. Entre eles estão a endorfina, a dopaminaa serotonina e a noradrenalina.

Além disso, o exercício atua na mecânica das articulações: todas elas possuem uma membrana interna que produz o líquido sinovial, um lubrificante natural.

Conforme o corpo se mexe, mais é estimulada a circulação do líquido sinovial, o que facilita o deslizamento entre os ossos e lubrifica a articulação.

“Na prática clínica, trabalhamos o alongamento para reduzir a rigidez muscular e a mobilização para devolver a funcionalidade ao membro. O fortalecimento muscular é essencial para aliviar as dores: muitas vezes a articulação já apresenta desgaste, e o músculo precisa ser fortalecido para suportar a carga que ela não consegue mais absorver sozinha”, explica o especialista.

É possível ficar 100% livre da dor, mas nem todos conseguem. Tem dor crônica que envolve outros fatores além da musculatura e da articulação.

“Desgaste articular eu não consigo resolver 100% com exercício. Mas é aquela coisa: hoje a dor é nota oito. Com atividade físicapassa a doer quatro. Em vez de cinco crises no ano, eu terei duas. Se antes ficava cinco dias parado, hoje paro somente um. E o mais importante: quando eu percebo que a crise de dor vai chegar, já sei como enfrentá-la.”

Em São Paulo, a rede municipal de saúde possui seis Centros de Referência da Dor, um em cada região da cidade. O acesso é por meio da UBS de referência.

Cada unidade conta com uma equipe multiprofissional composta por médicos especialistas (anestesiologistas e/ou neurologistasclínicos especialistas em dor, ou fisiatras), além de enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos e assistentes sociais.

Em outros municípios brasileiros, o indivíduo deve se informar sobre o tratamento contra dor crônica na UBS perto de onde mora.

Ó projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde

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